Foto: Daniela Lima.
Texto: Lilian Dorea*.
janeiro sem dinheiro, sem viagens e sem a necessidade esdrúxula de ter o corpo sarado para o verão. os dias estão assim: mortos. quentes e mortos. sem vontade até para ir ao bar da esquina, tomar a cerveja gelada de todos os dias. o dono do botequim é amigo e conselheiro, coloca as garrafas de skol na conta e ainda oferece uns amendoins como cortesia da casa. mas não, sem vontade. acho melhor aproveitar meu verão dando banho nos gatos e fazendo a sagrada faxina anual, porque as do resto do ano são apenas retoques necessários. e quando menos percebo o quarto é outro, de novo. gavetas com menos roupas, armários com menos bagunça, tudo de menos. só nã consigo dar fim aos jornais. acho que nunca vou conseguir me livrar desses cadernos especiais da folha de são paulo, cheios de dicas de museus, filmes, músicas, livros. mas óquei, a pilha está cada vez menor e eles já não ocupam tanto espaço assim, principalmente agora, com duas caixas a menos no guarda-roupa. três quilos de lembranças pro caminhão levar amanhã.
tiro do baú um saco só de papéis antigos. rasgo, amasso, separo e dou de cara com um envelope perdido no meio da bagunça. uma carta, uma foto, meu passado, uma ex-paixão. o primeiro velho de todos. ricardo. jornalista, escritor, metido à artista. ouvinte de blues, leitor de henry miller, me ensinou a gostar de anaïs nin e a querer ser como ela. ricardo gostava de fumar uns charutos cubanos e era bem mais velho do que eu. quase vinte anos de vida a mais. oito meses juntos. fodas incríveis, noites incríveis, e daí a gente terminou pelo mesmo motivo que todos os caras mais velhos e filhos da puta terminam com um garota de 21 anos: ele era casado.
sofri, definhei, andei na beira do precipício, circulei entre carros em movimento, chorei na plataforma do metrô abraçada a minha mochila. senti a dor mais violenta de todas as dores da paixão. durante um ano foi assim. fiquei sem dormir, bebi como se todos os bares do planeta fossem fechar, comi feito mulher grávida, é, afundei. e a saudades? saudades com o tempo passa, o caralho. saudade quando envolve amor, meu bem, cria raiz dentro do peito. e eu arrastava pela casa, ia e voltava do trabalho sem saber para onde exatamente tinha ido ou estava voltando. uma zumbi, morta viva, como esses dias. e a falta dele batendo cada vez mais forte. a falta gritando no portão da minha casa. o cheiro do charuto parecia ter nascido com ele. era o cheiro dele. e eu precisava me sentir próxima daquele sujeito. uma caixa, duas caixas; eu não fumava, eu só gostava do cheiro.
o cheiro do charuto trazia ele pra perto de mim, me dava energia, equílibrio, harmonia. aquela fumaça era tal como um incenso sendo queimado. e as finalidades do meu incenso cubano eram: combater as saudades, os fracassos amorosos e as boas lembranças. uau. até que um dia, os aromas finalmente fizeram efeito e o ricardo virou só alguém que nunca deveria ter passado pela minha existência, mesmo me apresentando o casal miller. enfim. hoje em dia percebo que o cigarro tem a mesma finalidade, o mesmo tranquilizador de corações dilacerados, com a diferença que a única que provoca qualquer estrago por aqui é essa que vos escreve. ninguém mais pisa no coitado a não ser os meus próprios pés. e, pensando bem, acho que vou lá tomar minha cerveja e comer uns amendoins, antes que o último maço de malboro acabe.
*lilian dorea (ou leemaria) tem 24 anos e é mãe do clodoaldo e da maria flor. carrega o bukowski tatuado no braço direito e enfurece os donos de botecos da rua augusta por gastar guardanapos com anotações bebuns.
12 Comentários até o momento
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“saudades com o tempo passa, o caralho. saudade quando envolve amor, meu bem, cria raiz dentro do peito.”
SEM DÚVIDA!!!
Comentário por Marcelo Janeiro 14, 2008 @ 3:04 pmOh uau. Você é Excelente.
Comentário por Bandini. Janeiro 14, 2008 @ 10:15 pmArrepios.
Comentário por Valmir Janeiro 15, 2008 @ 12:22 amTexto ótimo, e com um final daqueles. Me surpreendeu!
Comentário por Clara Janeiro 15, 2008 @ 2:08 pmmuito foda.
Comentário por bruno Janeiro 15, 2008 @ 10:54 pmadoro esse texto.
Uau. Raro ler um texto tão bom assim na blogosfera… Viva o Transitivos!
Comentário por Diego Janeiro 15, 2008 @ 11:35 pme então, meu bem, enquanto não passa a gente se consola que um dia vai passar. e passa. “me disseram isto com tanta veêmencia, que acreditei”.
Comentário por fale com ela Janeiro 19, 2008 @ 1:58 amA saudade e sua nitidez perversa… texto FODA!
Comentário por Mônica Janeiro 20, 2008 @ 3:20 pméguaaaaaaaaaaaaaaaa
foi dando uma angústia em alguns momentos mas depois que vc dá a “volta” por cima é como um filme com FINAL FELIZ!
adorei!
Comentário por Amanda Janeiro 28, 2008 @ 2:34 pmUhauhauahauhu, texto muito bom, fodíssimo, já passei por algo semelhante, definhei literalmente mas hj ele só é alguém que nunca deveria ter passado pela minha vida e continuo bebendo como se todos os bares do mundo fossem fechar kkkkkkkk
Comentário por Luciana Lyra Janeiro 29, 2008 @ 10:42 pmBom demais, Dani!
Comentário por Samantha Abreu Fevereiro 4, 2008 @ 5:04 pmBom demais.
Vocês gostam, mesmo, de chuva, de fumante, de melancolia comedida! Medida em grandezas vetoriais! Qual o sentido, afinal?
Comentário por Pedro Henrique Fevereiro 20, 2008 @ 2:09 am