Transitivos – Literatura::Fotografia::Desenho.


Segunda
agosto 16, 2007, 8:00 pm
Filed under: Clara Mazini, Daniela Lima

1.jpg

 Foto: Daniela Lima.
Texto: Clara Mazini.

 

 

Ele dormia levemente inclinado para a esquerda, de um modo como ela jamais experimentara. Arriscou, então, a mesma posição por quem sabe três segundos, mas logo voltou o rosto e abdômen para junto do lençol, que de tão branco parecia respirar com ela.

 

Já ele respirava longe, em algum lugar onde a posição de seu corpo deveria fazer algum sentido. Respirava tão distante que o ar parecia mesmo escapar-lhe, como acabam fugindo as coisas desnecessárias para quem mete-se debaixo de tantos sonhos.

 

Aproximou-se devagar e olhou-o demoradamente, parecendo derramar gota a gota. Por um instante (ele mal se movia), uma faísca de dúvida. Mas sim, ele estava vivo. O ar ia e vinha quase despercebido de si mesmo, mas ainda sim.

 

Pensou então na grandiosidade da morte, na importância natural que recebem as coisas que só acontecem uma vez. Sem repetições ou ensaios, lá vem… mas não agora. Apenas distante, com o ar distraído nos pulmões. Sonolento, dormente.

 

Era engraçado ver a pele branca dialogando perfeitamente com a cor do lençol. Naquele conjunto tudo sugeria uma harmonia – poderia mesmo dizer que ele parecia ser feito para aquela cama, para aquele instante do dia. Um garoto feito de manhã e tonalidades homogêneas.

 

Uma pena! Aquela cena, desenhada pela pele, ar e algodão, também só aconteceria uma vez. Um movimento inconsciente, uma agitação de dedos… e já viraria outra.

 

Tentou fazer de seus olhos dois rasgões imóveis e muito atentos, antes que aquela imagem mudasse. Era bonito daquele jeito – bonito de um modo que não mais seria em poucos instantes (não por deixar de ser bonito, mas por deixar de ser daquele modo como ela capturava, e ela gostava assim). Encarou até os olhos arderem por insistirem em não fechar. Piscou, afinal, duas vezes e sentiu que após esse ato algo havia ficado para trás, embora quase tudo permanecesse como até então.

 

Sentiu-se saudosa, mas ao mesmo tempo livre, e ensaiou um movimento qualquer com o braço. Ele moveu a cabeça, mas continuou na sonolência típica dos que costumam tomar porres durante a madrugada.

 

Engraçado, tantos litros de cerveja – mas ele agora tinha o sono como álibi para tornar-se leve, quase inocente de qualquer situação. E naquele momento era essa a melhor palavra. Leve… mais leve que uma pluma, mais leve do que uma idéia de pluma.

 

E era assim que ela também se sentia. Testemunhar tudo aquilo impregnava-a com a sensação inegável daquele quarto. Leve e ao mesmo tempo passageiro (por mais que insistisse em não piscar os olhos).

 

Deixou-se então observando aquele peito que agora ia e vinha com mais força, ritmado como os ponteiros de um relógio. Ah sim, o tempo – faltava pouco, mas ainda… Resolveu então se despir de qualquer tipo de pensamento e pousar toda a sua atenção no peito indo e vindo… Indo e vindo como algo que não consegue ir completamente embora.

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12 Comentários so far
Deixe um comentário

The first one! Vida longa aos transitivos.
Beijos.
🙂

Comentário por Leonardo Ramadinha

Parabéns, Clara. O texto é lindo!

Comentário por transitivos

O texto é lindo demais.
Chega dar inveja – das boas.

Comentário por Peito Aberto

Clara, sempre ela!

Comentário por Diogo Lyra

“mais leve do que uma idéia”… isso é magnífico! belo texto. belo lugar..

Comentário por fabrício fortes

Gostei do texto
“Piscou, afinal, duas vezes e sentiu que após esse ato algo havia ficado para trás, embora quase tudo permanecesse como até então.”
Uma sensação de deja vu ao inverso, ao contrário… Descobrindo novos aspectos do ser ao lado

Parabéns!

Comentário por Paulo DAuria

Muy Belo!

Comentário por Leandro Jardim

genial.
palaras colocadas como peças de um quebra-cabeça.
somadas a foto, a perfeição.

Comentário por givethatup

Olá Clara!
Primeiro, quero agradecer a visita dos “Transitivos:”; segundo, quero dizer que gostei muito do teu texto; qualidade, pois,não lhe falta.
Pretende voltar para conhecer os outros escritores.
Parabéns.
Pedro Luso.

Comentário por Pedro Luso de Carvalho

Genial, Clara! Um quê daqueles momentos em que não se sabe ao certo se se vive um sonho ou se ele já faz parte de um passado recente… Adorei!!!

Comentário por Viviane

Lindo texto !!!!

Comentário por carol luck

Dani, não conhecia essa imagem e gostei bastante, vc tem uma série dessas? Parabéns a todos transitivos.

Comentário por m.a.portela




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