Transitivos – Literatura::Fotografia::Desenho.


Minha vida sem mim
janeiro 2, 2008, 6:01 pm
Filed under: Clara Mazini, Daniela Lima

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Foto: Clara Mazini.
Texto: Daniela Lima.

Você precisa entrar no ringue sabendo que não vai escapar de todos os socos. Amigo, você vai apanhar. E muito. Então, pense se vale a pena. Mas saiba que aqui fora, na torcida, a gente também se dá mal. As pessoas estão sempre dispostas a roubar a sua cadeira, a trapacear nas apostas e até a tirar a sua vida.

Já não fecho os olhos, na hora de receber a minha dose diária de decepção. Não é qualquer golpe que me derruba – embora,

todos

me

machuquem.

 

Tento ter consciência da totalidade das coisas e: um soco é só um soco. Então, procuro não me prender àquele instante de dor – a vida vai além dos elásticos, dos juízes e da torcida. Na verdade, a vida vai além de você e

de

mim.
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Se essa rua fosse minha
setembro 4, 2007, 1:04 am
Filed under: Clara Mazini, Leonardo Ramadinha

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Foto: Leonardo Ramadinha.
Texto: Clara Mazini.

Cismou que aquela rua tinha nome de poetisa e continuou pensando assim até o final de seu último dia naquela cidade e muito depois.

Mesmo hoje, sem a cidade, a rua ou o nome, ela ainda lembra aquelas calçadas como quem experimenta o melhor dos poemas.

Noturno, aquele caminho abrigava todo o tipo de gente em um abraço largo e lascivo. Pernas para todos os lados da avenida corriam como corre o sangue que ao circular pela artéria de um organismo muito vivo confere a ele a qualidade inevitavelmente pulsante.

E ela pulsava entre putas e punks, entre livros que aguardavam na calçada, no meio de desenhos de todas as cores que em seus segredos revelavam uma parte da cidade que jamais dormia.

E ela ali, misturada aos fumos e gasolina queimada, provando o gosto estranho e doce de caminhar por uma rua de poetisa de todos os tempos; espalhando sempre versos com os olhos pelo simples fato de estar ali.

Prova definitiva de qualquer sentimento extremo, naquela rua tudo parecia reconhecer-se exageradamente infinito dentro de suas possibilidades. Mesmo dentro, o gosto era tão sincero que escorria até manchar todo o corpo de uma vontade louca de ser feliz.

Ainda agora ela insiste – aquela rua foi o poema mais encantadoramente desastroso e por isso mesmo tão verdadeiro. Uma espécie de rascunho tão confortável em seus defeitos que dispensa a idéia de obra-prima.

Uma idéia que, de tão bonita, adia ao máximo a hora de terminar, até se esquecer completamente dela.



Segunda
agosto 16, 2007, 8:00 pm
Filed under: Clara Mazini, Daniela Lima

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 Foto: Daniela Lima.
Texto: Clara Mazini.

 

 

Ele dormia levemente inclinado para a esquerda, de um modo como ela jamais experimentara. Arriscou, então, a mesma posição por quem sabe três segundos, mas logo voltou o rosto e abdômen para junto do lençol, que de tão branco parecia respirar com ela.

 

Já ele respirava longe, em algum lugar onde a posição de seu corpo deveria fazer algum sentido. Respirava tão distante que o ar parecia mesmo escapar-lhe, como acabam fugindo as coisas desnecessárias para quem mete-se debaixo de tantos sonhos.

 

Aproximou-se devagar e olhou-o demoradamente, parecendo derramar gota a gota. Por um instante (ele mal se movia), uma faísca de dúvida. Mas sim, ele estava vivo. O ar ia e vinha quase despercebido de si mesmo, mas ainda sim.

 

Pensou então na grandiosidade da morte, na importância natural que recebem as coisas que só acontecem uma vez. Sem repetições ou ensaios, lá vem… mas não agora. Apenas distante, com o ar distraído nos pulmões. Sonolento, dormente.

 

Era engraçado ver a pele branca dialogando perfeitamente com a cor do lençol. Naquele conjunto tudo sugeria uma harmonia – poderia mesmo dizer que ele parecia ser feito para aquela cama, para aquele instante do dia. Um garoto feito de manhã e tonalidades homogêneas.

 

Uma pena! Aquela cena, desenhada pela pele, ar e algodão, também só aconteceria uma vez. Um movimento inconsciente, uma agitação de dedos… e já viraria outra.

 

Tentou fazer de seus olhos dois rasgões imóveis e muito atentos, antes que aquela imagem mudasse. Era bonito daquele jeito – bonito de um modo que não mais seria em poucos instantes (não por deixar de ser bonito, mas por deixar de ser daquele modo como ela capturava, e ela gostava assim). Encarou até os olhos arderem por insistirem em não fechar. Piscou, afinal, duas vezes e sentiu que após esse ato algo havia ficado para trás, embora quase tudo permanecesse como até então.

 

Sentiu-se saudosa, mas ao mesmo tempo livre, e ensaiou um movimento qualquer com o braço. Ele moveu a cabeça, mas continuou na sonolência típica dos que costumam tomar porres durante a madrugada.

 

Engraçado, tantos litros de cerveja – mas ele agora tinha o sono como álibi para tornar-se leve, quase inocente de qualquer situação. E naquele momento era essa a melhor palavra. Leve… mais leve que uma pluma, mais leve do que uma idéia de pluma.

 

E era assim que ela também se sentia. Testemunhar tudo aquilo impregnava-a com a sensação inegável daquele quarto. Leve e ao mesmo tempo passageiro (por mais que insistisse em não piscar os olhos).

 

Deixou-se então observando aquele peito que agora ia e vinha com mais força, ritmado como os ponteiros de um relógio. Ah sim, o tempo – faltava pouco, mas ainda… Resolveu então se despir de qualquer tipo de pensamento e pousar toda a sua atenção no peito indo e vindo… Indo e vindo como algo que não consegue ir completamente embora.