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Para S
agosto 24, 2007, 8:08 pm
Filed under: Leonardo Ramadinha, Lucianno Maza

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Foto: Leonardo Ramadinha.
Texto: Lucianno Maza.

Então, adeus.

O palco sem você é vazio. Não importa quantos corpos se movam entre a neblina artificial.

Dividimos tão poucas noites. Tão pouco vinho foi entregue às nossas veias… Veneno de deuses para os homens. Você meu ascense espiritual, ritual de libertação tóxica.

 

Eu te procuro em outras mulheres, e em alguns homens também. Mas nunca te encontro. Você não é uma divindade que habita em seus corpos, você é meu altar de adoração à vida.

 

Sua bipolaridade me surpreende e me prova vivo, sua melancolia me traz conforto, como se retornasse à casa ou visse uma foto de mim mesmo. Suas fragilidades: querer te abraçar, cuidar de você, subverter as regras que criamos, falar sem palavras, respirar no seu ritmo.

 

É tudo tão doído, tão absurdo e cinza. Hemorragia de palavras vazias, embalagens de biscoito recheado, drogas médicas ao lado da cama. Nada me parece familiar nessa vida.

 

Mas você traz um sentido pra isso tudo. Tentar te entender, desistir, tentar novamente. Te pedir em silêncio pra me permitir conhecer o que há por detrás do teu olhar. Mas você nega. Privilégio esse dado aos homens menos trôpegos, não aos viajantes que aportam hoje em ti e logo se vão ao mar silencioso do esquecimento.  

 

Penso em qual planeta você está agora, e que tipo de ser que não eu te faz companhia, se você está caminhando com pés descalços em flores secas de cor lilás ou em cacos de vidros: pétalas cortantes da rosa da civilização. O silêncio sai dos seus lábios mortos no sono da noite. Ou é o álcool que brinda o céu da sua boca? Quisera eu estar aí e te enxugar as lágrimas invisíveis.

 

Aqui, sozinho penso em como é patético estar vivo. Sinto uma saudade do sempre e do nunca, dos tempos mais remotos da humanidade onde você era pó, e eu pó e tudo cinzas ao vento norte de um dia sem fim. Da janela do décimo oitavo andar vejo as ruas iluminadas pelo âmbar dos postes e o azul lavanda de uma lua tímida como você. Uma voz doce vem da caixa de som, na música uma mulher implora à outra, Jolene, que não fique com seu homem e diz algo como “você pode facilmente tomar o meu homem, mas você não sabe o que ele significa pra mim, você poderia escolher qualquer homem, mas eu nunca poderia amar novamente”.

 

Você conhece essa música? Tanta coisa eu queria te mostrar… Te mostrar meus livros, meus cds, minhas idéias meio tortas sobre o mundo. Eu queria te mostrar a mim mesmo. Dividir-me contigo. E queria conhecer você. Não no raso da piscina diária, mas no profundo do mar escuro. Eu preciso da escuridão, das profundezas, do que é inatingível… Minhas asas são adereço e fantasia, sou Ícaro querendo cair, sempre, cada vez mais: ser um anjo caído te acariciando na sombra eterna. 

 

Imagens poéticas transpassam minha mente quando lembro dos teus olhos perdidos na imensidão da vida, cegueira branca de quem enxerga ao longe, através, que vê o que há de sagrado e escondido. Que medo tenho do seu olhar de medusa que transforma tudo á volta em pedra sem sentido.

 

Eu não quero te reencontrar, não apenas. Esbarrar em você e te olhar fingindo não sentir todas as dores do mundo em mim. Eu quero me calar na sua frente, chorar como menino imbecil, deitar nos seus seios minhas tristezas essenciais, entrar dentro de você e existir aí. Loucura insana querer viver dentro de ti. Pulsar minha vida na tua. Meu corpo no teu.

 

Lembro que da última vez que nos vimos esqueci com você um pedaço do meu coração, talvez ele já tenha apodrecido em suas mãos, ou você o preservou na memória. Será que algum dia estarei no diário dos seus dias frios?

E penso que os românticos estão mortos.

Querida S.

 

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