Transitivos – Literatura::Fotografia::Desenho.


Alma Gêmea
setembro 13, 2007, 2:17 pm
Filed under: Marco A

1178329767_f.jpg



Tem poesia aqui, Marli
setembro 9, 2007, 12:25 am
Filed under: Mika Lins, R. Senra, Transitivos Indiretos

mikalins2.jpg

Desenho: Mika Lins.
Texto: Ricardo Senra*.

 

Fechou. Eu aproveitei pra descer e atravessar a rua bem rápido, antes que o outro lado do cruzamento começasse a chover aqueles carros todos. A avenida era só mais uma dessas grandes, em cidades grandes, com trânsito o dia inteiro e movimento razoável tarde da noite. Comigo, no ponto de ônibus, dois caras distraídos e um casal mais afastado, à doutores de alegria, se amassando numa árvore dessas normais em avenidas grandes, em cidades grandes.

O mais gordo dos dois caras apanhou logo um ônibus. Em frente ao ponto estacionou em seguida um carro largo, pisca-alerta cumprindo o seu papel, e eis que dele me sai um cara de macacão prateado com uma logomarca esquisita na nuca, duas palavras quaisquer em inglês, e abre à chave o porta-malas sem a menor pressa. Dois baldes, dois panos e aquela vassoura caduca e careca. Rodo. Até aí eu ainda não prestava atenção e continuava a olhar puto pro relógio da esquina – mais um desses estúpidos, que insistem por quarenta segundos na merda da temperatura antes de só confirmarem que você está de fato atrasado e que a mesma desculpa mulambenta, Monique, mais uma vez, não vai colar. Respirei fundo.

E dei aquela olhada em volta. O ponto de ônibus era daqueles com um vidro enorme, estrutura grande de ferro escuro e cartazes de peças de quinta, pregados em vitrines iluminadas por lâmpadas de banheiro. Típico ponto de ônibus grande de uma cidade grande, logo em frente a um restaurante. O vidro. O vidro estava completamente encharcado e cheio de espuma branca, aumentando além da conta aquele friozinho que dá com vento gelado na rua, depois da meia noite. Eu já quase me arrependia por não prestar atenção em como é que aquele cara molhou e ensaboou toda aquela vidralha, mas nessa hora que começou o concerto.

Com c.

O rodo fazia e repetia um mesmo caminho, sob a mesmíssima velocidade, e não deixava nenhum senão nem seco, nem sujo. O outro cara, o de preto, que também devia estar tentando esperar um ônibus, acompanhava atento os lentos movimentos verticais, mexendo de vez em quando a cabeça, enquanto eu esperava já quase tenso poder rever aquelas linhas tortas que ele faria paralelas ao chão, mais uma vez. Volta e meia acontecia do cara de preto olhar em volta, meio a segurar um sorriso criançola, criando um cacófato e concluindo provavelmente que eu estaria pensando literalmente no seguinte: “Caramba, eu nunca parei pra pensar que existisse um cara especialmente dedicado à limpeza de pontos de ônibus. Mesmo em cidades grandes”.

Eu pensava exatamente no mesmo de volta, e aí nasceu o corno do cacófato. Tinha poesia ali, Marli. Por mais que o menos sexie entre os seus significados, aquele vai-e-vem todo podia ser tão bom quanto música, tão métrico e bem construído ele parecia. Podia-se chamar sem culpa aquele artista de elegante, era uma aula de elegância, também e justamente pelo fato d’ele saber que era inegavelmente assistido e, assim mesmo, não se distrair em nenhum momento e cumprir seu papel muito além da simples faxina. Ele era nem maestro, era mestre de coreografia. Nós dois, envergonhados, já quase parávamos de assistir e procurávamos a merda do relógio para disfarçar, quando enfim chega aquela mulher.

Com o tempo vocês vão entender o que eu digo, mas de cara me veio à cabeça, e mais uma vez, a cara imbecil da Macabea, e todas aquelas minhas amigas mortícias que se amarram na Clarice Linspector. Antes que eu explique:

Continue lendo



riozebratubo
setembro 6, 2007, 12:15 am
Filed under: Roberto Buaiz, Transitivos Indiretos

caixa.jpg

— Não consigo me ouvir direito em você. Dá pra melhorar o retorno?

Continue lendo



Se essa rua fosse minha
setembro 4, 2007, 1:04 am
Filed under: Clara Mazini, Leonardo Ramadinha

d_rio_port003.jpg

Foto: Leonardo Ramadinha.
Texto: Clara Mazini.

Cismou que aquela rua tinha nome de poetisa e continuou pensando assim até o final de seu último dia naquela cidade e muito depois.

Mesmo hoje, sem a cidade, a rua ou o nome, ela ainda lembra aquelas calçadas como quem experimenta o melhor dos poemas.

Noturno, aquele caminho abrigava todo o tipo de gente em um abraço largo e lascivo. Pernas para todos os lados da avenida corriam como corre o sangue que ao circular pela artéria de um organismo muito vivo confere a ele a qualidade inevitavelmente pulsante.

E ela pulsava entre putas e punks, entre livros que aguardavam na calçada, no meio de desenhos de todas as cores que em seus segredos revelavam uma parte da cidade que jamais dormia.

E ela ali, misturada aos fumos e gasolina queimada, provando o gosto estranho e doce de caminhar por uma rua de poetisa de todos os tempos; espalhando sempre versos com os olhos pelo simples fato de estar ali.

Prova definitiva de qualquer sentimento extremo, naquela rua tudo parecia reconhecer-se exageradamente infinito dentro de suas possibilidades. Mesmo dentro, o gosto era tão sincero que escorria até manchar todo o corpo de uma vontade louca de ser feliz.

Ainda agora ela insiste – aquela rua foi o poema mais encantadoramente desastroso e por isso mesmo tão verdadeiro. Uma espécie de rascunho tão confortável em seus defeitos que dispensa a idéia de obra-prima.

Uma idéia que, de tão bonita, adia ao máximo a hora de terminar, até se esquecer completamente dela.



Dilaceradas
agosto 29, 2007, 6:02 pm
Filed under: Aline Jobim, Transitivos Indiretos

toulouselautrec-thetoilette1.jpg

 Imagens: Aline Jobim*.
Textos: Rainha das Pérolas, Clarice Lispector.
Música: Let’s Call the Whole Thing Off – Billie Holiday.

“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente”.

eduardhooper-hotelroom.jpg

 “Passei a minha vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente.”

franciscogoyathenudemaja.jpg

 “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato… Ou toca, ou não toca.”

Continue lendo



Sonhos tortos
agosto 26, 2007, 4:14 pm
Filed under: Daniela Lima, Mika Lins, R. Senra, Transitivos Indiretos

mikalins.jpg

Desenho: Mika Lins.
Texto: Daniela Lima e (o quase Transitivo) R. Senra*.

Naquela noite, o Baixo Gávea era Paris – ou era a vodka que não queria ser russa; queria ser parisiense. Olhei pro copo e pensei: “Falta muita delicadeza para”. Mas não era o Baixo Gávea; era Montmartre – e o segundo ponto e vírgula da coisa. E então, Cézanne, Monet, Van Gogh, Renoir, Toulouse-Lautrec e eu, em uma mesinha à beira da rua. Ele chegou, com as suas mãos de escritor, e me ofereceu um livro de poesias. Recusei: “Não falo francês”. Mas o livro acabou ficando sobre a mesa e, de repente, começou a flertar com o português:


O Bordel do Poeta

Tava com aquela cara de porta quando abriu o espelho e entrou na sala.
Parágrafo 2046, letra 402, fundos.

De cara, eram seis exclamações magrelas,
pulando putas e pretas num canto,
final do corredor.

Já sobre o palco, parco, porco e alto,
sinuosa e só de calcinha,
rebolava uma interrogação
e bem torta,
da esquerda à direita
e ao meio,
quase. Quase tocando o chão. Onde,
só,
dormia uma moedinha esquecida
por uma reticência incompleta.

Suas duas irmãs surrupolhavam redondas
Três Marias boladas pelo basculante,
Sujeitas oblíquas,
em pontos de inveja
barrigas brilhando.

Abriu seu reflexo e entrou no banheiro.
Olhou para a porta e as viu,
em cima dos olhos:
Duas vírgulas dispensáveis,
em forma de parêntese.

Fechou o contexto e as raspou,
tornou-as colchetes.

Torneira ligada,
água quase molhada,
barulho de verbo,
um redemoínho formou.

Os travessõezinhos de pêlos
à pia escorreram,
e correram,
chegaram,
arfaram,
morreram,
entraram no ponto
e ponto!

Saíram pelo cano.

Continue lendo



Para S
agosto 24, 2007, 8:08 pm
Filed under: Leonardo Ramadinha, Lucianno Maza

ramadinha.jpg

Foto: Leonardo Ramadinha.
Texto: Lucianno Maza.

Então, adeus.

O palco sem você é vazio. Não importa quantos corpos se movam entre a neblina artificial.

Dividimos tão poucas noites. Tão pouco vinho foi entregue às nossas veias… Veneno de deuses para os homens. Você meu ascense espiritual, ritual de libertação tóxica.

 

Eu te procuro em outras mulheres, e em alguns homens também. Mas nunca te encontro. Você não é uma divindade que habita em seus corpos, você é meu altar de adoração à vida.

 

Sua bipolaridade me surpreende e me prova vivo, sua melancolia me traz conforto, como se retornasse à casa ou visse uma foto de mim mesmo. Suas fragilidades: querer te abraçar, cuidar de você, subverter as regras que criamos, falar sem palavras, respirar no seu ritmo.

 

É tudo tão doído, tão absurdo e cinza. Hemorragia de palavras vazias, embalagens de biscoito recheado, drogas médicas ao lado da cama. Nada me parece familiar nessa vida.

 

Mas você traz um sentido pra isso tudo. Tentar te entender, desistir, tentar novamente. Te pedir em silêncio pra me permitir conhecer o que há por detrás do teu olhar. Mas você nega. Privilégio esse dado aos homens menos trôpegos, não aos viajantes que aportam hoje em ti e logo se vão ao mar silencioso do esquecimento.  

 

Penso em qual planeta você está agora, e que tipo de ser que não eu te faz companhia, se você está caminhando com pés descalços em flores secas de cor lilás ou em cacos de vidros: pétalas cortantes da rosa da civilização. O silêncio sai dos seus lábios mortos no sono da noite. Ou é o álcool que brinda o céu da sua boca? Quisera eu estar aí e te enxugar as lágrimas invisíveis.

 

Aqui, sozinho penso em como é patético estar vivo. Sinto uma saudade do sempre e do nunca, dos tempos mais remotos da humanidade onde você era pó, e eu pó e tudo cinzas ao vento norte de um dia sem fim. Da janela do décimo oitavo andar vejo as ruas iluminadas pelo âmbar dos postes e o azul lavanda de uma lua tímida como você. Uma voz doce vem da caixa de som, na música uma mulher implora à outra, Jolene, que não fique com seu homem e diz algo como “você pode facilmente tomar o meu homem, mas você não sabe o que ele significa pra mim, você poderia escolher qualquer homem, mas eu nunca poderia amar novamente”.

 

Você conhece essa música? Tanta coisa eu queria te mostrar… Te mostrar meus livros, meus cds, minhas idéias meio tortas sobre o mundo. Eu queria te mostrar a mim mesmo. Dividir-me contigo. E queria conhecer você. Não no raso da piscina diária, mas no profundo do mar escuro. Eu preciso da escuridão, das profundezas, do que é inatingível… Minhas asas são adereço e fantasia, sou Ícaro querendo cair, sempre, cada vez mais: ser um anjo caído te acariciando na sombra eterna. 

 

Imagens poéticas transpassam minha mente quando lembro dos teus olhos perdidos na imensidão da vida, cegueira branca de quem enxerga ao longe, através, que vê o que há de sagrado e escondido. Que medo tenho do seu olhar de medusa que transforma tudo á volta em pedra sem sentido.

 

Eu não quero te reencontrar, não apenas. Esbarrar em você e te olhar fingindo não sentir todas as dores do mundo em mim. Eu quero me calar na sua frente, chorar como menino imbecil, deitar nos seus seios minhas tristezas essenciais, entrar dentro de você e existir aí. Loucura insana querer viver dentro de ti. Pulsar minha vida na tua. Meu corpo no teu.

 

Lembro que da última vez que nos vimos esqueci com você um pedaço do meu coração, talvez ele já tenha apodrecido em suas mãos, ou você o preservou na memória. Será que algum dia estarei no diário dos seus dias frios?

E penso que os românticos estão mortos.

Querida S.