Transitivos – Literatura::Fotografia::Desenho.


Tem poesia aqui, Marli
setembro 9, 2007, 12:25 am
Filed under: Mika Lins, R. Senra, Transitivos Indiretos

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Desenho: Mika Lins.
Texto: Ricardo Senra*.

 

Fechou. Eu aproveitei pra descer e atravessar a rua bem rápido, antes que o outro lado do cruzamento começasse a chover aqueles carros todos. A avenida era só mais uma dessas grandes, em cidades grandes, com trânsito o dia inteiro e movimento razoável tarde da noite. Comigo, no ponto de ônibus, dois caras distraídos e um casal mais afastado, à doutores de alegria, se amassando numa árvore dessas normais em avenidas grandes, em cidades grandes.

O mais gordo dos dois caras apanhou logo um ônibus. Em frente ao ponto estacionou em seguida um carro largo, pisca-alerta cumprindo o seu papel, e eis que dele me sai um cara de macacão prateado com uma logomarca esquisita na nuca, duas palavras quaisquer em inglês, e abre à chave o porta-malas sem a menor pressa. Dois baldes, dois panos e aquela vassoura caduca e careca. Rodo. Até aí eu ainda não prestava atenção e continuava a olhar puto pro relógio da esquina – mais um desses estúpidos, que insistem por quarenta segundos na merda da temperatura antes de só confirmarem que você está de fato atrasado e que a mesma desculpa mulambenta, Monique, mais uma vez, não vai colar. Respirei fundo.

E dei aquela olhada em volta. O ponto de ônibus era daqueles com um vidro enorme, estrutura grande de ferro escuro e cartazes de peças de quinta, pregados em vitrines iluminadas por lâmpadas de banheiro. Típico ponto de ônibus grande de uma cidade grande, logo em frente a um restaurante. O vidro. O vidro estava completamente encharcado e cheio de espuma branca, aumentando além da conta aquele friozinho que dá com vento gelado na rua, depois da meia noite. Eu já quase me arrependia por não prestar atenção em como é que aquele cara molhou e ensaboou toda aquela vidralha, mas nessa hora que começou o concerto.

Com c.

O rodo fazia e repetia um mesmo caminho, sob a mesmíssima velocidade, e não deixava nenhum senão nem seco, nem sujo. O outro cara, o de preto, que também devia estar tentando esperar um ônibus, acompanhava atento os lentos movimentos verticais, mexendo de vez em quando a cabeça, enquanto eu esperava já quase tenso poder rever aquelas linhas tortas que ele faria paralelas ao chão, mais uma vez. Volta e meia acontecia do cara de preto olhar em volta, meio a segurar um sorriso criançola, criando um cacófato e concluindo provavelmente que eu estaria pensando literalmente no seguinte: “Caramba, eu nunca parei pra pensar que existisse um cara especialmente dedicado à limpeza de pontos de ônibus. Mesmo em cidades grandes”.

Eu pensava exatamente no mesmo de volta, e aí nasceu o corno do cacófato. Tinha poesia ali, Marli. Por mais que o menos sexie entre os seus significados, aquele vai-e-vem todo podia ser tão bom quanto música, tão métrico e bem construído ele parecia. Podia-se chamar sem culpa aquele artista de elegante, era uma aula de elegância, também e justamente pelo fato d’ele saber que era inegavelmente assistido e, assim mesmo, não se distrair em nenhum momento e cumprir seu papel muito além da simples faxina. Ele era nem maestro, era mestre de coreografia. Nós dois, envergonhados, já quase parávamos de assistir e procurávamos a merda do relógio para disfarçar, quando enfim chega aquela mulher.

Com o tempo vocês vão entender o que eu digo, mas de cara me veio à cabeça, e mais uma vez, a cara imbecil da Macabea, e todas aquelas minhas amigas mortícias que se amarram na Clarice Linspector. Antes que eu explique:

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Sonhos tortos
agosto 26, 2007, 4:14 pm
Filed under: Daniela Lima, Mika Lins, R. Senra, Transitivos Indiretos

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Desenho: Mika Lins.
Texto: Daniela Lima e (o quase Transitivo) R. Senra*.

Naquela noite, o Baixo Gávea era Paris – ou era a vodka que não queria ser russa; queria ser parisiense. Olhei pro copo e pensei: “Falta muita delicadeza para”. Mas não era o Baixo Gávea; era Montmartre – e o segundo ponto e vírgula da coisa. E então, Cézanne, Monet, Van Gogh, Renoir, Toulouse-Lautrec e eu, em uma mesinha à beira da rua. Ele chegou, com as suas mãos de escritor, e me ofereceu um livro de poesias. Recusei: “Não falo francês”. Mas o livro acabou ficando sobre a mesa e, de repente, começou a flertar com o português:


O Bordel do Poeta

Tava com aquela cara de porta quando abriu o espelho e entrou na sala.
Parágrafo 2046, letra 402, fundos.

De cara, eram seis exclamações magrelas,
pulando putas e pretas num canto,
final do corredor.

Já sobre o palco, parco, porco e alto,
sinuosa e só de calcinha,
rebolava uma interrogação
e bem torta,
da esquerda à direita
e ao meio,
quase. Quase tocando o chão. Onde,
só,
dormia uma moedinha esquecida
por uma reticência incompleta.

Suas duas irmãs surrupolhavam redondas
Três Marias boladas pelo basculante,
Sujeitas oblíquas,
em pontos de inveja
barrigas brilhando.

Abriu seu reflexo e entrou no banheiro.
Olhou para a porta e as viu,
em cima dos olhos:
Duas vírgulas dispensáveis,
em forma de parêntese.

Fechou o contexto e as raspou,
tornou-as colchetes.

Torneira ligada,
água quase molhada,
barulho de verbo,
um redemoínho formou.

Os travessõezinhos de pêlos
à pia escorreram,
e correram,
chegaram,
arfaram,
morreram,
entraram no ponto
e ponto!

Saíram pelo cano.

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